As bromélias, plantas típicas da Mata Atlântica, ganharam uma função científica estratégica nas ruas de Registro. O município é sede de um estudo inédito da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Unesp, que utiliza essas plantas como indicadores biológicos para medir a poluição atmosférica e o conforto térmico urbano.

O projeto faz parte de uma rede nacional que alimenta o Plano Nacional de Arborização Urbana (Planau), lançado pelo Governo Federal durante a COP30. A meta do plano é ambiciosa: transformar as cidades brasileiras em ambientes mais resilientes e arborizados até 2045, combatendo as chamadas "ilhas de calor".

Como funciona o "biomonitoramento"?

Em vez de equipamentos eletrônicos caros e complexos, os cientistas utilizam a própria natureza. Em Registro, 120 amostras de bromélias foram instaladas em quatro bairros estratégicos:

  1. Jardim San Conrado
  2. Agrochá
  3. Vila Tupi
  4. Alay Corrêa

As plantas ficam expostas por 85 dias. Durante esse período, elas "respiram" o ar da cidade e acumulam partículas e substâncias químicas. Após o prazo, as amostras são levadas para análise no Centro de Capacitação e Pesquisa em Meio Ambiente (CEPMA) da USP, onde os pesquisadores conseguem identificar o nível de poluição de cada região.

Foto: Prefeitura de Registro/SP

A Regra do 3:30:300

O estudo em Registro segue uma diretriz internacional de planejamento urbano, agora incorporada às metas brasileiras. Trata-se da regra 3:30:300, que define o cenário ideal para uma vida saudável na cidade:

  1. 3 árvores visíveis de cada residência;
  2. 30% de cobertura vegetal em cada bairro;
  3. 300 metros é a distância máxima que qualquer morador deve percorrer para chegar a um parque ou área verde.

Ciência e Saúde Pública

A escolha dos bairros não foi por acaso. O professor Dr. Marcelo Vieira Ferraz, da Unesp Registro, explica que foram cruzados dados de cobertura vegetal com indicadores socioeconômicos. 

"A arborização é uma ferramenta de saúde pública e justiça ambiental", afirma.

O estudo, que integra a tese de doutorado de Lucas Monteiro de Carvalho Silva (USP), sob coordenação do Prof. Dr. Maurício Lamano, deve avançar nos próximos meses. As próximas fases incluem o mapeamento de calçadas, acessibilidade e como o "verde" impacta diretamente na redução de doenças respiratórias e no estresse térmico da população.

"O objetivo futuro é ampliar o estudo para escolas e unidades de saúde, entendendo como o verde urbano interfere na saúde de quem mais precisa", destacam os pesquisadores.

Com os dados coletados em Registro e em outras 11 cidades brasileiras (como Cubatão, Santarém e Maceió), o Ministério do Meio Ambiente terá subsídios técnicos para apoiar prefeituras na substituição de árvores exóticas por espécies nativas e na criação de viveiros municipais mais eficientes.

  1. Foto: Prefeitura de Registro/SP