O Governo do Estado de São Paulo iniciou uma obra de contenção da erosão no Estreito do Melão, localizado no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, em Cananéia, no Vale do Ribeira. A intervenção recebe investimento de cerca de R$ 12 milhões e busca impedir o rompimento do cordão arenoso que separa o Oceano Atlântico do Canal do Ararapira.

 

Caso a faixa de terra seja completamente aberta pela força das águas, um trecho já existente no sul da Ilha do Cardoso ficará cercado pelo mar e pelo canal, formando uma nova ilha. O processo pode alterar a circulação das águas, as rotas de navegação e a dinâmica ambiental da região.

Os trabalhos são conduzidos pela Fundação Florestal em parceria com a SP Águas e têm duração prevista de nove meses. O projeto foi elaborado após levantamentos técnicos, monitoramentos realizados em campo e discussões com moradores das comunidades tradicionais da ilha.

 

Engenharia será usada para recompor faixa de areia

 

A intervenção prevê a retirada controlada de sedimentos do canal e o reposicionamento desse material no trecho atingido pela erosão. A areia será utilizada para recompor e estabilizar o cordão arenoso do Estreito do Melão, reforçando a barreira natural entre o oceano e o estuário.

Também está prevista a utilização de estruturas geotêxteis preenchidas com areia. Os equipamentos funcionam como barreiras de contenção e ajudam a reduzir a energia das ondas e das correntes sobre a faixa de terra.

 

Antes do início da operação, foram realizadas sondagens geotécnicas, análises laboratoriais dos sedimentos e levantamentos batimétricos, utilizados para identificar a profundidade e as características do fundo do canal. Em seguida, foram concluídos o projeto executivo, a contratação da empresa responsável e o transporte dos equipamentos e embarcações.

 

O processo erosivo está relacionado à ação conjunta das marés, correntes marítimas, ventos, ressacas e movimentação natural dos sedimentos. A elevação do nível do mar e a ocorrência de eventos climáticos extremos também podem intensificar as mudanças na linha costeira.

 

Equipes trabalham na instalação de barreiras com geotubos no Estreito do Melão, na Ilha do Cardoso, em Cananéia, litoral sul de São Paulo. Foto: Fundação Florestal/Divulgação

 

Rompimento pode afetar comunidades e navegação

 

O estreitamento da faixa de areia preocupa moradores de comunidades caiçaras próximas ao local, como Vila Mendonça e Nova Enseada da Baleia. Um eventual rompimento pode dificultar deslocamentos, modificar áreas utilizadas pela pesca artesanal e provocar mudanças nos manguezais, que dependem do equilíbrio entre água doce e salgada.

 

A região já passou por uma transformação semelhante. Em 2018, o rompimento de outra faixa arenosa abriu uma nova ligação entre o oceano e o Canal do Ararapira. O episódio alterou as correntes locais e contribuiu para o processo de realocação de famílias da Enseada da Baleia.

 

A situação no Estreito do Melão também foi levada à Justiça. Em fevereiro de 2026, uma decisão judicial determinou que o Estado apresentasse providências e estudos técnicos para enfrentar a erosão, após uma ação do Ministério Público de São Paulo. O processo contou ainda com acompanhamento da Defensoria Pública, especialistas e representantes das comunidades.

 

Barreiras de geotubos vão conter erosão que pode dividir Ilha do Cardoso. Foto: Fundação Florestal/Divulgação

 

Área reúne diferentes ecossistemas do litoral sul

 

Criado em 1962, o Parque Estadual da Ilha do Cardoso possui aproximadamente 13,6 mil hectares e reúne áreas de Mata Atlântica, restingas, manguezais, praias, costões rochosos, rios e estuários. A unidade de conservação também abriga comunidades tradicionais e sítios de importância histórica e cultural.

 

Durante a execução da obra, equipes da Fundação Florestal e da SP Águas deverão acompanhar o comportamento das correntes e dos sedimentos. O monitoramento servirá para avaliar os resultados da intervenção e possíveis ajustes durante os nove meses de trabalho.

 

FONTE: Estadão SP