No Vale do Ribeira, o som que vem das matas e das lavouras ganhou um novo significado para os produtores de Jacupiranga (SP). No último dia 12 de março, o Rancho Docena foi palco de um encontro que trocou o jargão técnico das bancadas de laboratório pelo pé no chão da roça. A oficina “Polinizadores, Produção de Alimentos e Práticas Agrícolas” reuniu agricultores familiares, extensionistas e pesquisadores para discutir um aliado silencioso, mas indispensável: a abelha.
A capacitação, coordenada pela pesquisadora Katia Braga, da Embrapa Meio Ambiente, buscou preencher uma lacuna histórica. Embora a ciência saiba muito sobre polinização, esse conhecimento raramente cruza a porteira das pequenas propriedades. 

"O processo de polinização natural e a diversidade de polinizadores nativos são fundamentais para a produção de alimentos, mas esse saber precisa chegar à prática agrícola", afirma Katia.

Foto: Prefeitura Municipal de Jacupiranga 

O "exército" invisível da roça
Os números impressionam e justificam a preocupação dos especialistas. Cerca de 80% das plantas cultivadas que chegam à nossa mesa dependem da polinização por abelhas. Nas regiões tropicais, elas são responsáveis por 94% da reprodução das plantas com flores.
Para o agricultor familiar, que representa 77% dos estabelecimentos rurais do Brasil segundo o Censo Agropecuário de 2017, entender essa dinâmica é questão de sobrevivência econômica. Sem o polinizador, o fruto não vinga ou nasce deformado, perdendo valor de mercado. Durante a oficina, os participantes aprenderam que as flores "dão pistas" sobre quem as visita, uma relação de dependência mútua que garante a diversidade genética da Mata Atlântica.

Foto: Kátia Braga
Foto: Kátia Braga
Foto: Kátia Braga

Parceria local e compromisso com o campo
A iniciativa foi realizada por meio de uma parceria direta entre a Secretaria Municipal de Agricultura da Prefeitura de Jacupiranga e a Embrapa. Para a gestão municipal, o foco é garantir que o produtor local tenha acesso ao que há de mais moderno em termos de sustentabilidade e produtividade.

"Realizamos essa oficina para mostrar aos nossos agricultores e agricultoras familiares que a preservação desses agentes naturais é o que garante o equilíbrio ambiental e a maior produtividade nas propriedades", destaca a Secretária de Agricultura de Jacupiranga, Maria do Socorro Fernandes. "Esta ação reforça nosso compromisso com a formação e a valorização de quem produz no campo, promovendo práticas que respeitam a nossa biodiversidade".

Foto: Prefeitura Municipal de Jacupiranga 

Práticas que protegem o lucro
O desafio, no entanto, é o manejo. A intensificação agrícola, o uso incorreto de defensivos e a simplificação das paisagens colocam em risco as comunidades de abelhas silvestres. O curso abordou como pequenas mudanças no dia a dia podem reverter esse quadro:
* Manutenção de faixas de mata: Áreas de vegetação nativa servem de "casa" e refúgio para as abelhas.
* Redução de químicos: O uso criterioso de defensivos evita a morte em massa de polinizadores.
* Diversificação de cultivos: Ter diferentes flores ao longo do ano garante alimento constante para os insetos.
Ciência participativa
A programação do dia foi além da teoria. Entre palestras interativas e dinâmicas de grupo, os produtores puderam observar de perto como ocorre a polinização e como as abelhas interagem com os cultivos locais. A iniciativa faz parte do projeto “Produção Rural Sustentável”, uma parceria que envolve a Embrapa, a C3 Ambiental e a Prefeitura de Jacupiranga.
O encerramento contou com uma roda de conversa onde o conhecimento científico se misturou aos relatos de vida de quem lida com a terra. O "dever de casa" para esses agricultores agora é observar o zumbido nas flores como um sinal de saúde da propriedade.

Foto: Prefeitura Municipal de Jacupiranga 
Foto: Prefeitura Municipal de Jacupiranga 
Foto: Prefeitura Municipal de Jacupiranga 

PRÓXIMOS PASSOS
O projeto integra o Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital), apoiado pela Fapesp. A expectativa da Secretaria de Agricultura é que as práticas discutidas em Jacupiranga sirvam de modelo para outras regiões do Vale do Ribeira, garantindo que a proteção de uma pequena abelha continue assegurando o prato de comida de milhões de brasileiros.