
Existem diálogos que, pela profundidade de suas reflexões, permanecem atuais muito tempo depois que a última luz do auditório se apaga. É o caso da roda de conversa com o fotógrafo e educador Miguel Chikaoka, ocorrida no início deste semestre, no dia 06 de fevereiro, no Bunkyo de Registro (SP). O encontro, que ainda reverbera nas discussões culturais da cidade neste mês de abril, trouxe um olhar renovado sobre a arte de capturar o invisível.
Promovida pelos coletivos Ribeira Plus e Registro City, a iniciativa faz parte de um projeto de fortalecimento de saberes locais coordenado por Victor Yagyu. Para o público de Registro, ver Chikaoka em cena é presenciar o retorno de um filho ilustre: nascido na cidade, ele construiu uma trajetória de mais de 40 anos que o tornou referência nacional e fundador da icônica Fotoativa, em Belém (PA).
Mottainai: A Ética da Essência contra o Desperdício
O eixo central da noite foi a filosofia japonesa Mottainai. Tradicionalmente utilizada para pregar o aproveitamento de recursos materiais, a expressão ganhou, na voz de Chikaoka, uma dimensão existencial e artística.
"Motai quer dizer essência, nai é negação. Então, Mottainai, se nós somos amigos e eu não me conecto à essência dessa nossa amizade, eu estou desperdiçando", explicou o mestre, provocando o público a pensar sobre como a pressa da vida moderna nos faz "desperdiçar" a essência dos momentos e das luzes que nos cercam.
Para Miguel, a fotografia é o antídoto contra esse desperdício. É o exercício de parar, observar e honrar a luz que incide sobre o objeto e sobre o outro.

A Matemática da Sensibilidade e a Prática Pedagógica
Um dos momentos mais fascinantes do encontro foi quando Chikaoka utilizou cálculos matemáticos para explicar o deslocamento da luz. O objetivo não era o tecnicismo vazio, mas sim situar o homem no mundo em relação ao fenômeno físico da visão. Ele defende que entender a física da luz é, em última análise, entender a própria percepção da realidade.
Com uma bagagem pedagógica que percorre estados como Pará, Paraná e Minas Gerais, o educador relembrou suas experiências com crianças. Nestas oficinas, o aprendizado é sensorial e artesanal: os alunos constroem as próprias câmeras, entendem o princípio da câmara escura e experimentam o fotograma. Essa "alfabetização visual" busca formar não apenas fotógrafos, mas cidadãos mais atentos e críticos.

Um Encontro de Saberes e Continuidade
Embora o evento tenha ocorrido em fevereiro, o impacto de sua mensagem sobre a "valorização do agora" e o cuidado com a essência permanece como uma diretriz para os projetos culturais que o Ribeira Plus e o Registro City desenvolvem neste segundo trimestre.
Victor Yagyu, coordenador do projeto, reforçou que a experiência com Chikaoka foi um divisor de águas pessoal e institucional.

“A vinda do Miguel Chikaoka para Registro, dentro dessa proposta do Mottainai, reforça a importância de olharmos para a criação a partir do que já temos, seja na fotografia, na arte ou na própria forma de enxergar o mundo. A gente fortalece não só o repertório criativo, mas também uma forma mais consciente e coletiva de produzir cultura e educação.”, destaca Victor Yagyu, diretor de comunicação do Bunkyo de Registro
O lançamento dessa reflexão em Registro reafirma o papel do Vale do Ribeira como um polo de efervescência intelectual, onde a tradição japonesa, a técnica fotográfica e o desejo de transformação social se encontram para iluminar novos caminhos.

TEXTO: Elen Konno / Erik Moura