Quando fundou o Teatro Oficina em meados de 1958, José Celso Martinez Corrêa (o "Zé Celso") talvez nunca teria imaginado — talvez, sim — que em 2027, no Vale do Ribeira, no interior de São Paulo, jovens celebrariam sua história e seu legado em um espetáculo que leva seu nome: “ZÉ”. Três anos após sua partida física em 2023, aos 86 anos, o tempo parece se curvar. A cena teatral brasileira se mobiliza em festa novamente para celebrar o que seriam os 90 anos do genial encenador. E esta celebração não se faz com o silêncio da nostalgia ou a poeira dos arquivos, mas com a presença viva, pulsante e ritualística de um teatro que se recusa a domesticar-se.

Zé Celso / Créditos: Gabriel Rinaldi

O responsável por este reavivamento dionisíaco é o renomado Grupo Caixa Preta de Teatro. Completando trinta e dois anos de uma trajetória profundamente transformadora e descentralizadora nas artes cênicas — sediado na cidade de Registro (SP), mas com passaportes carimbados por palcos de todo o Brasil e do exterior —, o coletivo já se encontra em meio aos ensaios intensos daquela que promete ser uma de suas produções mais ambiciosas. “ZÉ” não pede licença; invade, atravessa e reúne.

O espetáculo-manifesto congrega um time monumental de trinta e cinco jovens artistas oriundos das cidades de Miracatu, Juquiá, Pariquera-Açú, Cananeia, Cajati e da própria Registro. Trata-se do Vale do Ribeira em estado de multidão, aglutinado em torno da paixão visceral pelo fazer teatral, sob a assinatura de um dos grupos mais tradicionais e primorosos do país.

Crédito: Divulgação/Grupo Caixa Preta de Teatro
Ensaios de “Zé” - Crédito: Gustavo Lobo
Ensaios de “Zé” - Crédito: Gustavo Lobo

Incorporação em vez de Biografia

É preciso advertir o espectador: não se trata de uma simples homenagem póstuma, tampouco de uma cronologia didática sobre a genialidade do fundador do icônico Teatro Oficina Uzyna Uzona, do Bixiga. A montagem, estruturada como um rito contemporâneo, mergulha na essência do homem que revolucionou o teatro latino-americano. Zé Celso sempre rompeu as estruturas tradicionais e a "quarta parede", propondo um teatro de corpo inteiro — político, jovem, coletivo e radicalmente vivo.

E é exatamente esse o cerne da pesquisa do Caixa Preta: não representar uma biografia ilustrada do artista, mas incorporá-lo na linguagem de seu teatro transformador e profundamente humano. Com Direção Geral e Dramaturgia de Fernando Barbosa, Direção Musical de Wilson Junior (Chorão), Direção Artística de Fabiano Muniz e Coreografia de Emerson Trankas, o espetáculo inspira-se na criatividade e na luta fértil do diretor paulista para erguer uma densa analogia sobre os "Zés" anônimos que habitam em cada indivíduo dedicado a transformar a vida e o mundo ao seu redor.

"Cada troca dentro desse núcleo tem me feito refletir não apenas sobre quem eu sou, mas também sobre quem somos em sociedade e sobre quem são os 'Zés' que encontramos pelo caminho. Quais são suas motivações? Seus desejos? Seus medos? Eles estão nas histórias que cruzam a nossa vida diariamente, mas também dentro de cada um de nós e é isso que queremos transmitir"Ruth Mendonça, atriz do espetáculo.

Ensaio "Cidade dos Pássaros" no Teatro Oficina Uzyna Uzona. Crédito: Divulgação/Grupo Caixa Preta de Teatro
"Cidade dos Pássaros" no Teatro Oficina Uzyna Uzona. Crédito: Divulgação/Grupo Caixa Preta de Teatro

O Coro e as Figuras Alegóricas

A estrutura cênica é conduzida por um coro vibrante. Há uma clara inspiração nas matrizes da tragédia grega clássica, porém completamente contaminada pela energia tropicalista, pela antropofagia cultural e pela urgência do agora. No centro desse turbilhão, o jovem ator Asael Harin assume o papel de Zé Celso. Não há aqui espaço para a mimese caricata; Asael ergue-se como um canal condutor sobre o tempo, um corpo intensamente disponível para a história, para o delírio e para a poesia.

Ao redor do protagonista, emergem figuras alegóricas fundamentais à nossa própria existência: o Tempo, o Desejo, a Vida, a Justiça e a Morte. O espetáculo promete devorar linguagens, misturar épocas e embaralhar fronteiras geográficas e estéticas, trazendo ao palco do novo e lindo Teatro Caixa Preta o Brasil em seu estado mais bruto e poético.

"O Teatro Oficina e seus artistas incríveis e inspiradores são mestres e me atravessam com sua generosidade profunda. São esses artistas nossa inspiração para celebrar a genialidade de um gênio que fez e faz do teatro sempre a maior das celebrações humana. ZÉ é minha declaração de amor às pessoas que transgridem, transformam e deixam mais bonito o seu tempo"Fernando Barbosa, Diretor do espetáculo.

Fernando Barbosa, diretor do espetáculo “Zé” - Créditos: Divulgação/Grupo Caixa Preta de Teatro

Mais do que revisitar o passado, “ZÉ” lança uma flecha em direção ao futuro e propõe uma indagação incômoda e urgente ao público: o que você tem feito do seu tempo? Celebrar a permanência do risco, da invenção e da liberdade de Zé Celso Martinez Corrêa é lembrar, afinal, que o teatro continua sendo um potente ato de transformação individual e coletiva.

Ficha Técnica & Coletivo Artístico

  • Direção Geral e Dramaturgia: Fernando Barbosa
  • Direção Artística: Fabiano Muniz
  • Direção Musical: Wilson Junior (Chorão)
  • Coreografia: Emerson Trankas
  • Músicos em Cena: Artur Jacob, Julio Neto, Wil Junior
  • Elenco (Coro e Personagens): Ana Flávia Vieira, Luiza Higa, Ana Santos, Leonardo José, Ana Flórido, Karelly Mendes, Isabelly Mendes, Helen Camilo, Jhones Lira, Julia Gimenez, Cauã Flórido, João Sirus, Nathalia Nogueira, Juju Saraiva, Ana Mendonça, Vic Mendonça, Ruth Mendonça, Isabella Padma, Najah Hojeije, Tamiris Rodriguez, Heloisa França, Camila Machado, Eduardo Vaz, Asael Harin (como Zé Celso), Jéssica Botti, Marcela Firmino, Fernanda Santoz, Ana Vieira, Ed Reis, Dani Fiel, Pietro Amaral, Débora Tieppo.
  • Realização: Grupo Caixa Preta de Teatro