A canção popular tradicional já anuncia o tom da jornada: “Quem te ensinou a nadar? Quem te ensinou a nadar? Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar”. É sob a égide dessa lírica náutica e popular que o Grupo Caixa Preta de Teatro prepara o seu retorno aos palcos. No próximo dia 31 de julho, o coletivo estreia a nova montagem de NAVEGAR no Sesc Registro, marcando as duas décadas de existência de um dos espetáculos mais importantes e celebrados de sua trajetória artística.

Nascida originalmente em 2005, a obra retorna ao circuito cultural com uma proposta de encenação renovada, reafirmando a potência do teatro de rua, da cultura popular e do exercício da imaginação. A apresentação, que tem caráter comemorativo, abre uma nova temporada de circulação para o grupo, profundamente vinculado à identidade cultural do Vale do Ribeira.

Duas décadas de uma jornada internacional

A história de NAVEGAR confunde-se com a própria maturidade do Grupo Caixa Preta. Quando estreou, há vinte anos, no Festival de Teatro de Curitiba — uma das principais vitrines das artes cênicas do país —, o espetáculo conquistou reconhecimento imediato da crítica e do público. O impacto da montagem original foi tamanho que, naquele mesmo ano de 2005, a produção foi indicada e selecionada para o renomado 60º Festival de Teatro de Avignon, na França, um dos mais prestigiados eventos de teatro do mundo.

A direção artística da nova versão é assinada por Fernando Barbosa — que, na primeira montagem, interpretou o "Capitão" e, agora, busca preservar o caráter poético, lúdico e universal que transformou o espetáculo em um divisor de águas na história da companhia, ao mesmo tempo em que propõe novos respiros cênicos.

"Revisitar NAVEGAR após duas décadas não é apenas um exercício de memória, mas uma necessidade de reencontro. O espetáculo sempre carregou uma essência muito humana e simples, que é justamente o que precisamos recuperar em tempos tão fragmentados. Ao dirigir esta nova montagem, meu objetivo foi honrar a poesia que construímos lá atrás, mas permitindo que os novos atores tragam suas próprias vivências, conferindo ao texto um fôlego que é, ao mesmo tempo, histórico e urgente para o público de hoje", afirma o diretor Fernando Barbosa.

Fernando Barbosa, dando vida ao “Capitão”, na montagem de 2005. Foto: Divulgação

A poética visual e a tradição da commedia dell'arte

Narrativamente, o espetáculo acompanha o percurso de João, interpretado nesta montagem pela jovem atriz Ana Santos. João é um pintor que, em uma noite inesperada, vê sua rotina rompida pela visita de dois personagens misteriosos e enigmáticos. A partir desse encontro fortuito, o protagonista é conduzido por uma jornada que transita entre a vigília e o sonho, a memória e a descoberta, redescobrindo o desejo criativo, a coragem de imaginar e, sobretudo, o valor subjetivo do tempo.

Para dar vida a esse universo de contornos fantásticos, a encenação apoia-se fortemente na tradição da commedia dell'arte e no legado das antigas companhias teatrais itinerantes, que cruzavam territórios levando a arte dramática às praças e mercados. O rigor estético dessa pesquisa reflete-se diretamente nos elementos visuais da peça.

Os figurinos são assinados pela artista Jane Klitzke, sediada em Cuiabá (MT), enquanto as máscaras expressivas, fundamentais para a linguagem do gênero, foram criadas de forma artesanal pela mestra Telma Amaral, no Espírito Santo. O cenário e os adereços que compõem o espaço cênico também levam a assinatura do diretor Fernando Barbosa, criando uma unidade estética que une diferentes referências do artesanato cultural brasileiro.

A união entre elementos da commedia dell'arte, música ao vivo e a potência da nova geração de atores do Grupo Caixa Preta. Foto: Divulgação / Nathália Vitorino.

Formação, território e o ritmo da cena

Um dos pontos centrais desta nova montagem de NAVEGAR é o seu papel como espaço de intercâmbio geracional e pedagógico. O elenco reúne os jovens atores Cauã Flórido e Heloisa França, ambos integrantes do núcleo II de teatro do Programa Território das Artes. O projeto de formação continuada é realizado pelo próprio Grupo Caixa Preta em sua sede, localizada no município de Registro, funcionando como um polo de descentralização e fomento à produção artística local.

A dinâmica da cena ganha o reforço da atriz e percussionista Paloma Medeiros. Responsável pela execução da trilha sonora ao vivo, a musicista utiliza ritmos e instrumentos que intensificam o caráter ritualístico e o apelo popular da montagem, estabelecendo um canal direto de comunicação com o espectador.

Mais do que apenas revisitar um texto histórico de seu repertório, o Grupo Caixa Preta propõe, com NAVEGAR, um manifesto sobre a permanência do fazer teatral. Em um período social marcado pelo excesso de estímulos digitais e pela velocidade das informações, o espetáculo configura-se como um convite explícito para desacelerar, propondo uma experiência artística voltada para a sensibilidade, a escuta e o reencontro com o encantamento cotidiano.

Paloma Medeiros, Heloisa França, Ana Santos,  e Cauã Flórido, integrantes do núcleo de formação do Grupo Caixa Preta. Foto: Divulgação / Nathália Vitorino.

Serviço

  • Espetáculo: NAVEGAR (Grupo Caixa Preta de Teatro)
  • Estreia: 31 de julho (Sexta-feira)
  • Local: Sesc Registro (Rua Prefeito Jonas Banks Leite, 57 - Centro, Registro - SP)
  • Entrada: Gratuita (retirada de ingressos na bilheteria da unidade uma hora antes do início da sessão)
  • Classificação: Livre para todos os públicos
  • Ficha Técnica:
    • Texto: Fabiano Muniz
    • Direção, Cenário e Adereços: Fernando Barbosa
    • Elenco: Ana Santos, Cauã Flórido, Heloisa França e Paloma Medeiros
    • Figurinos: Jane Klitzke
    • Confecção de Máscaras: Telma Amaral