Nascida no Quilombo de Ivaporunduva, em Eldorado, Maíra Rodrigues da Silva construiu uma trajetória acadêmica diretamente ligada ao território onde cresceu. Bióloga, pesquisadora e professora, ela se tornou a primeira mestra quilombola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e, em 2026, concluiu o doutorado em Geociências pela instituição.
Ao longo da formação, Maíra passou a estudar temas que dialogam diretamente com a realidade do Vale do Ribeira e de outras comunidades tradicionais do país. Suas pesquisas abrangem contaminação ambiental, biodiversidade, mudanças climáticas, recursos naturais e os impactos de atividades humanas sobre os territórios. Atualmente, ela também participa de projetos nacionais e internacionais relacionados à resiliência, povos tradicionais e clima.
Essa relação entre ciência, território e preservação também esteve presente no seminário “O Vale do Ribeira e a luta contra as barragens”, realizado em 14 de março de 2026, no Sesc Registro.
Promovido pelo MOAB – Movimento dos Ameaçados por Barragens do Vale do Ribeira, em parceria com a EAACONE e o Sesc Registro, o encontro marcou o Dia Internacional de Luta Contra as Barragens e reuniu lideranças e pesquisadores para discutir a história de mobilização em defesa do Rio Ribeira de Iguape e os desafios ambientais que permanecem na região. Maíra participou da mesa dedicada às Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), mineração e às formas de resistência no Vale do Ribeira.
Pesquisa ligada ao Vale do Ribeira
A conexão entre a trajetória acadêmica de Maíra e a região aparece desde seus primeiros trabalhos científicos. Formada em Ciências Biológicas, ela também se especializou em Agroecologia e Educação no Campo. No mestrado em Geociências, concluído em 2017, pesquisou o potencial do feijão-de-porco na recuperação de solos do Vale do Ribeira contaminados por elementos como chumbo, arsênio e zinco.
O trabalho estava relacionado a um problema ambiental conhecido na região: a presença de metais potencialmente tóxicos decorrentes de antigas atividades de mineração.
No doutorado, Maíra ampliou esse campo de investigação. A pesquisa analisou a contaminação ambiental na bacia do Rio Paraopeba, em Minas Gerais, atingida pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, em 2019. O estudo buscou compreender não apenas os efeitos sobre água, solos e vegetação, mas também as consequências para comunidades que possuem relações sociais, culturais e históricas com esses ambientes.
Sua produção científica aproxima, dessa forma, análises ambientais realizadas dentro da universidade dos conhecimentos construídos pelas próprias comunidades.
Educação como parte da história
A relação de Maíra com a educação começou ainda no Quilombo de Ivaporunduva. Filha de professora, cresceu em contato com as histórias da comunidade e com as memórias transmitidas pelas gerações anteriores. Há cerca de 16 anos, deixou o território para ampliar sua formação. O caminho passou pela graduação em Ciências Biológicas, especialização, mestrado e doutorado, além da atuação como pesquisadora e professora.
A ligação com Ivaporunduva, entretanto, permaneceu. Atualmente, Maíra retorna semanalmente ao Vale do Ribeira para atuar na educação e compartilhar parte do conhecimento adquirido ao longo dessa trajetória com estudantes da região.
Na Unicamp, ela também passou a integrar o Programa Professor Especialista Visitante. A pesquisadora participa de uma disciplina interdisciplinar voltada a temas como impactos ambientais, ciência climática, saúde, justiça climática e resiliência das comunidades. Segundo a universidade, sua atuação busca estabelecer diálogo entre o conhecimento científico e os saberes desenvolvidos nos territórios tradicionais.
Ciência que também nasce no território
A própria aproximação de Maíra com a universidade começou antes de seu ingresso como estudante. Quando criança, ela teve contato com atividades desenvolvidas pela Unicamp em comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. Anos depois, passou pela extensão universitária e pela pesquisa até chegar à pós-graduação.
Essa experiência contribuiu para uma forma de produção científica que considera que os conhecimentos sobre rios, florestas, plantas e território não estão restritos aos laboratórios.
Em entrevista publicada pela Unicamp, Maíra resume essa relação ao afirmar que “os saberes ancestrais também são sofisticados”. Para a pesquisadora, aproximar diferentes formas de conhecimento não significa substituir a ciência, mas ampliar as maneiras de compreender os territórios e os desafios ambientais.
Do território para a universidade e de volta ao território
A trajetória da pesquisadora também ganha significado dentro da história do Quilombo de Ivaporunduva, uma das comunidades tradicionais mais antigas do Vale do Ribeira.
Ao tornar-se a primeira mestra quilombola da Unicamp e, posteriormente, doutora em Geociências, Maíra levou para dentro da universidade questões que fazem parte do cotidiano e da história de comunidades tradicionais.
Agora, parte desse caminho também faz o movimento inverso.
Ao retornar ao Vale do Ribeira para ensinar e participar de debates como o seminário realizado no Sesc Registro, a pesquisadora aproxima formação acadêmica, memória, educação e preservação ambiental.
Em uma região marcada por uma extensa rede de rios, remanescentes de Mata Atlântica e pela presença de comunidades quilombolas, indígenas, caiçaras e ribeirinhas, sua trajetória ajuda a reforçar uma discussão que atravessa gerações: preservar os recursos naturais também envolve reconhecer quem vive nesses territórios, ouvir seus conhecimentos e ampliar a participação das comunidades nas decisões que podem transformar o lugar onde vivem.
Assista o trecho da Maíra Rodrigues no seminário: “O Vale do Ribeira e a luta contra as barragens”: